
O homem não possui atributos físicos que o destaque como dominante dentre as espécies do reino animal; sua força física está bem aquém a de um elefante, um rinoceronte ou animais de médio e grande porte da áfrica central, por exemplo; sua agilidade e destreza não se comparam a de leopardos, tigres, leões, gatos e demais felinos; seus sentidos, são de maneira análoga, menos aguçados que a visão das águias, olfato dos cães e audição dos morcegos. O que leva, portanto, um ser tão pequeno e pouco imponente nessas características vir a dominar amplamente o espaço ocupado pelos animais terrestres superiores?
Fisiologicamente, pode-se afirmar que o homem caracteriza-se por um animal com um órgão hiper-desenvolvido em relação aos outros animais, aperfeiçoado pelo processo evolutivo. Hiper-desenvolvido não apenas em relação à sua bioquímica e melhor metabolização de um determinado conjunto de substratos, mas mais importante, em relação à nova gama de funções que esse órgão propiciou. Pela primeira vez, um animal pôde organizar suas ações de maneira racional, isto é, incumbir-se da lógica na análise de uma situação de causa e efeito, diferenciando-se assim do mero estímulo-resposta instintivo característico dos demais seres. À grosso modo, pode-se afirmar que o homem é o único animal capaz de refletir sua condição e a do meio que o cerca e, ciente disso, é capaz de interagir consigo, com outros seres e com o universo que o embebe. Muda-o, transforma-o e utiliza-se dele para deleito próprio, ou como definido por Paulo Freire em uma de suas obras: “lança-se num domínio que lhe é exclusivo: o da História e da Cultura”.
A nova maneira de se relacionar com o ambiente foi determinante para o sucesso da espécie. A organização do trabalho para fins de diminuição do esforço levaram, gradativamente, de propósitos mais subsistenciais, como domesticação de animais e domínio da agricultura, à mais superficiais, como o comércio, na formação das sociedades mais primitivas. Paralelamente, um conjunto de conhecimentos técnicos é criado, e junto a ele, a necessidade de perdurá-lo, de não perdê-lo.
Inicialmente, as relações humanas locais se prontificavam a confinar, solidificar e transmitir o conhecimento, no entanto, com aumento da complexidade técnica e diferenciação cultural, houve necessidade da organização de uma forma sistemática de transmissão de conhecimento, garantindo, entre outros, o próprio êxito de expansão das sociedades.
O conhecimento que, primariamente, se restringia a um objetivo puramente aplicativo pôde ser teorizado, transcendido à esfera metafísica. Como conseqüência, a simples transmissão do conhecimento puramente técnico já não supria as necessidades filosóficas e científicas das sociedades emergentes. Para isto, um conjunto de práticas didáticas foi estabelecido e o embrião do método de ensino, na forma como é conhecido hoje, concebido.

Restrito primeiramente às elites, nobres e classes favorecidas nas sociedades antigas, medievais e modernas, o ensino massificou-se no século XX, e com ele sua passividade educacional. O professor que antes se ocupava com um número reduzido de alunos, dando-lhes atenção particular, põe-se diante de dezenas e centenas deles. Naturalmente, a qualidade das discussões, assimilações, reflexões e argumentações decaem consideravelmente, regredindo, muitas vezes, ao estágio de mera passagem de conhecimento técnico. O processo educacional, que inicialmente se proporia pela extrapolação da simples aplicabilidade, não se concretiza, de libertador da mente e da capacidade criadora humana é seu aprisionador, e em sua acomodação, reduz o homem a objeto.
Valoriza-se demasiadamente a resposta dos acontecimentos, sem que, no entanto, o caminho trilhado até sua concepção tenha a mesma importância. Pouco se discute, pouco se confronta e logo, pouco se compreende. As verdades inquestionáveis e incontestáveis atribuída a muitas delas formam uma das características que fogem da racionalidade que caracteriza o homem, o abstém do estar ciente, entende mas não compreende, e não gera portanto, ciência.
O professor é um colaborador do processo de aprendizagem, na origem semântica mais primitiva do verbo “co-laborar”. Empenha-se junto ao aluno, opera com ele e não para ele. Trata-se de um processo simbiótico, de mútua cooperação, desierarquizado, nivelador ao patamar de conhecedores. O caminho das respostas dos fenômenos, como apontado no parágrafo anterior, mostra-se particularmente importante nesse intento. As considerações axiomáticas e os argumentos a partir delas desenvolvidos geram um inúmero espectro de respostas para um mesmo evento. Os embates entre os diferentes tipos de argumentos lapidam a capacidade argumentativa, e o conjunto de informações resultante, por sua vez, consolida o conhecimento científico.
A relação entre aluno e professor não foge das expectativas anteriores e o processo educacional pode ser simplificadamente visto como a criação do espírito científico, de forma que a capacidade do aluno de correlacionar conceitos distintos e utilizar-se deles para argumentar e provar uma situação se sobreponha à simples resposta previamente conhecida de um evento qualquer. Os argumentos do professor, entretanto, muitas vezes acabam por prevalecer sobre os do aluno devido ao maior arcabouço técnico-científico que o primeiro possui perante o segundo, não significando que o estudante não os questione, não aponte possíveis falhas, não argumente de forma mais coerente e não ponha em xeque a característica marcante da dessemelhança entre ambos.
Estudantes que tiveram contato com uma abordagem discussional argumentativa provavelmente perpetuarão esse método de assimilação e passarão tais características às gerações científicas posteriores, naturalmente gerando uma auto-suficiência científica. Ademais, a dificuldade inerente do processo de aprendizagem também possui papel importante no processo educacional. A não assimilação imediata conduz à reflexão mais profunda de determinadas características não tão claras àquele que as interpreta, e o conhecimento oriundo desse processo se torna muitas vezes maior que o necessário ao mero entendimento da situação proposta. Portanto, é na dificuldade do entender que o conhecimento se faz, e esse, por sua vez, é uma das ferramentas da ação social, onde democracia e cidadania, no âmago de seus significados, se concretizam.
Um processo educacional eficiente se torna importante ao próprio êxito científico e social, além disso, prolongar um sistema de transmissão e assimilação de conhecimento técnico-científico que preze o anti-diálogo entre quem ensina e quem é ensinado é negar a característica marcante que fez o homem díspar de seus conviventes, e através da qual colocou-se alto no domínio do planeta e no questionamento do Universo.






