domingo, 25 de maio de 2008

Ensaio sobre Educação

Após considerável período de abstinência em textos, venho através desse buscar reaver as palavras. Concordo que texto está extenso, mas não consegui condensar e ser mais sintético do que foi escrito, ainda mais sobre um assunto tão amplo e sujeito a polêmica.

Qual o fator diferencial do homem perante os demais animais?


O homem não possui atributos físicos que o destaque como dominante dentre as espécies do reino animal; sua força física está bem aquém a de um elefante, um rinoceronte ou animais de médio e grande porte da áfrica central, por exemplo; sua agilidade e destreza não se comparam a de leopardos, tigres, leões, gatos e demais felinos; seus sentidos, são de maneira análoga, menos aguçados que a visão das águias, olfato dos cães e audição dos morcegos. O que leva, portanto, um ser tão pequeno e pouco imponente nessas características vir a dominar amplamente o espaço ocupado pelos animais terrestres superiores?
Fisiologicamente, pode-se afirmar que o homem caracteriza-se por um animal com um órgão hiper-desenvolvido em relação aos outros animais, aperfeiçoado pelo processo evolutivo. Hiper-desenvolvido não apenas em relação à sua bioquímica e melhor metabolização de um determinado conjunto de substratos, mas mais importante, em relação à nova gama de funções que esse órgão propiciou. Pela primeira vez, um animal pôde organizar suas ações de maneira racional, isto é, incumbir-se da lógica na análise de uma situação de causa e efeito, diferenciando-se assim do mero estímulo-resposta instintivo característico dos demais seres. À grosso modo, pode-se afirmar que o homem é o único animal capaz de refletir sua condição e a do meio que o cerca e, ciente disso, é capaz de interagir consigo, com outros seres e com o universo que o embebe. Muda-o, transforma-o e utiliza-se dele para deleito próprio, ou como definido por Paulo Freire em uma de suas obras: “lança-se num domínio que lhe é exclusivo: o da História e da Cultura”.
A nova maneira de se relacionar com o ambiente foi determinante para o sucesso da espécie. A organização do trabalho para fins de diminuição do esforço levaram, gradativamente, de propósitos mais subsistenciais, como domesticação de animais e domínio da agricultura, à mais superficiais, como o comércio, na formação das sociedades mais primitivas. Paralelamente, um conjunto de conhecimentos técnicos é criado, e junto a ele, a necessidade de perdurá-lo, de não perdê-lo.
Inicialmente, as relações humanas locais se prontificavam a confinar, solidificar e transmitir o conhecimento, no entanto, com aumento da complexidade técnica e diferenciação cultural, houve necessidade da organização de uma forma sistemática de transmissão de conhecimento, garantindo, entre outros, o próprio êxito de expansão das sociedades.
O conhecimento que, primariamente, se restringia a um objetivo puramente aplicativo pôde ser teorizado, transcendido à esfera metafísica. Como conseqüência, a simples transmissão do conhecimento puramente técnico já não supria as necessidades filosóficas e científicas das sociedades emergentes. Para isto, um conjunto de práticas didáticas foi estabelecido e o embrião do método de ensino, na forma como é conhecido hoje, concebido.

Restrito primeiramente às elites, nobres e classes favorecidas nas sociedades antigas, medievais e modernas, o ensino massificou-se no século XX, e com ele sua passividade educacional. O professor que antes se ocupava com um número reduzido de alunos, dando-lhes atenção particular, põe-se diante de dezenas e centenas deles. Naturalmente, a qualidade das discussões, assimilações, reflexões e argumentações decaem consideravelmente, regredindo, muitas vezes, ao estágio de mera passagem de conhecimento técnico. O processo educacional, que inicialmente se proporia pela extrapolação da simples aplicabilidade, não se concretiza, de libertador da mente e da capacidade criadora humana é seu aprisionador, e em sua acomodação, reduz o homem a objeto.
Valoriza-se demasiadamente a resposta dos acontecimentos, sem que, no entanto, o caminho trilhado até sua concepção tenha a mesma importância. Pouco se discute, pouco se confronta e logo, pouco se compreende. As verdades inquestionáveis e incontestáveis atribuída a muitas delas formam uma das características que fogem da racionalidade que caracteriza o homem, o abstém do estar ciente, entende mas não compreende, e não gera portanto, ciência.
O professor é um colaborador do processo de aprendizagem, na origem semântica mais primitiva do verbo “co-laborar”. Empenha-se junto ao aluno, opera com ele e não para ele. Trata-se de um processo simbiótico, de mútua cooperação, desierarquizado, nivelador ao patamar de conhecedores. O caminho das respostas dos fenômenos, como apontado no parágrafo anterior, mostra-se particularmente importante nesse intento. As considerações axiomáticas e os argumentos a partir delas desenvolvidos geram um inúmero espectro de respostas para um mesmo evento. Os embates entre os diferentes tipos de argumentos lapidam a capacidade argumentativa, e o conjunto de informações resultante, por sua vez, consolida o conhecimento científico.
A relação entre aluno e professor não foge das expectativas anteriores e o processo educacional pode ser simplificadamente visto como a criação do espírito científico, de forma que a capacidade do aluno de correlacionar conceitos distintos e utilizar-se deles para argumentar e provar uma situação se sobreponha à simples resposta previamente conhecida de um evento qualquer. Os argumentos do professor, entretanto, muitas vezes acabam por prevalecer sobre os do aluno devido ao maior arcabouço técnico-científico que o primeiro possui perante o segundo, não significando que o estudante não os questione, não aponte possíveis falhas, não argumente de forma mais coerente e não ponha em xeque a característica marcante da dessemelhança entre ambos.
Estudantes que tiveram contato com uma abordagem discussional argumentativa provavelmente perpetuarão esse método de assimilação e passarão tais características às gerações científicas posteriores, naturalmente gerando uma auto-suficiência científica. Ademais, a dificuldade inerente do processo de aprendizagem também possui papel importante no processo educacional. A não assimilação imediata conduz à reflexão mais profunda de determinadas características não tão claras àquele que as interpreta, e o conhecimento oriundo desse processo se torna muitas vezes maior que o necessário ao mero entendimento da situação proposta. Portanto, é na dificuldade do entender que o conhecimento se faz, e esse, por sua vez, é uma das ferramentas da ação social, onde democracia e cidadania, no âmago de seus significados, se concretizam.
Um processo educacional eficiente se torna importante ao próprio êxito científico e social, além disso, prolongar um sistema de transmissão e assimilação de conhecimento técnico-científico que preze o anti-diálogo entre quem ensina e quem é ensinado é negar a característica marcante que fez o homem díspar de seus conviventes, e através da qual colocou-se alto no domínio do planeta e no questionamento do Universo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Doutor Alegria!

Primeiramente, gostaria de exprimir dois sentimentos opostos que me acometeram desde minha última publicação nesse blog. O primeiro deles é o de gratidão por ter sido homenageado como um blog de referência em alguns de meus contatos, me ponho a mercê da consideração que os tenho; o segundo, por motivos não tão nobres, é um sentimento de desculpas por ter passado um tempo considerável sem postar nem dar satisfação alguma para alguns leitores que desejam encontrar textos diferentes regularmente, e o que é pior, depois de me comprometer a manter uma frequência de postagens. Sim, os átomos também dão mancadas, as vezes não cumprem com a palavra e ficam um tanto quanto de saco cheio, além de igualmente serem assolados por períodos vazios de criatividade. Por outro lado, também ficam de recuperação, também têm que dar banho no cachorro, molhar as plantas, trabalhar, contar com infortúnios cotidianos e sentir angústia por talvez estar deixando aquele blog, que criou com tanto carinho e dedicação, virar comida de traças virtuais, se é que me acompanharam na analogia.

Chega de desculpas de mão amarela! Vamos ao que interessa... Recentemente, deparei-me com um personagem bem estranho do mundo em que vivemos, figura desconhecida para mim até então, simultaneamente assustador e cativante, ingênuo e inteligente, metade doutor, metade palhaço e ator. Sim, senhoras e senhores, o alienígena sobre qual lhes falo é ele, eternizado em numa recente e famosa película, Dr. Hunter "Patch" Adams.

Graduado em medicina, Dr. Adams se destacou pela abordagem sentimental dada a esse ramo científico, com grande destaque ao sentimento de prazer e felicidade. Não apenas no que respeita à bioquímica da fisiologia humana envolvida na concepção desses sentimentos, mas especialmente na forma como alcançá-los. Engana-se quem sugere pílulas e injeções para tal fim, visto o estereótipo médico que convivemos diariamente. Calças largas e coloridas, sapatos grandes de cores trocadas e meias sem qualquer apelo de moda, juntamente com camisetas floridas mescladas dentre as sete cores do arco-íris, aliadas à brincos de garfo e um espesso bigode à Salvador Dali , Patch fundiu o médico, o ator e o palhaço dentro de um único ser, empregando-o nessa prática bastante incomum e hilariante de medicina. Tamanho foram seus esforços que criou a cerca de 35 anos atrás o Instituto Gesundheit! (palavra em alemão análoga ao nosso "saúde!" após o espirro de alguém) no estado de Virginia, nos Estados Unidos.

Nesse recinto médico, gratuito, pôs em prática a medicina do espírito, da alegria e da felicidade, sem o tratamento acadêmico convencional e ausência das relações quase que profissionais de médico e paciente. Não encontrei melhor descrição da proposta do Instituto como a que o Próprio Dr. Patch Adams propõe no site oficial, traduzida mal e porcamente pelo ser quântico que lhes fala: "A idéia de que uma pessoa seja saudável devido a bons resultados de testes laboratoriais e chapas de raios X limpas não têm relação alguma com o que a pessoa é. Boa saúde está muito mais associada à fortes amizades, dignidade de trabalho, uma espiritualidade de qualquer tipo, uma oportunidade ao amor e integração à natureza, às artes, ao desejo, à curiosidade, paixão e esperança, todas essas requerem tempo, necessidades incontestáveis. Quando não as encontramos, a medicina de alta tecnologia prontifica-se a diagnosticar insanidade mental e nos tratar com pílulas."


A iniciativa de Patch Adams nos põe a refletir sobre algo tão disseminado quanto vago, ainda mais no meio médico: qualidade de vida. Qualidade em viver está intrínseco ao prazer. Idealismos a parte, a felicidade tão buscada se faz através dele. O prazer inegavelmente rege a orquestra da vida, nos orienta nas atribulações dos dias. Se hoje eu quero bife com fritas de almoço ao invés da macarronada ao molho bolonhesa, se quero ficar em casa ao invés de sair, se prefiro correr a andar, se gosto de história ao invés de química, se anseio aquela garota displicente do canto da sala ao invés da loira turbinada almejada por todos. Se gosto de Rock Progressivo ao invés de Hard Rock, Tchaikovsky a Chopin, Rafael a Michelângelo, se quero entrar na faculdade em detrimento à vida não acadêmica, trabalhar na indústria ou ser professor, se quero casar e ter filhos com a garota de quatro linhas atrás ou viver uma vida de solteiro sem limites. Enfim... são escolhas muitas vezes encabeçadas pelo prazer, sentimento muito mal explicado e muito bem sentido. O conjunto desses prazeres, numa disposição regular na vida pode vir a consolidar a qualidade de vida em questão.

Qual seria o papel do médico então? Simplesmente tardar a morte e deixar que a pessoa encontre seu próprio bem-estar? E se não encontrar, estará contribuindo com a depressão e com perpetuação de um estado de estresse nocivo para ela e para os entes próximos? Dr. Patch Adams parece ter achado a resposta, óbvia, no entanto "impraticável". Tornou-se parte do tratamento, mesmo as vezes pouco contribuindo diretamente para a cura farmacologica da moléstia em questão, não relutando porém, em fornecer soluções concentradas de bem-estar e qualidade de vida em períodos onde estas parecem não existir.

Por último, mas não menos importante, Adams defende a integração de alma e corpo, ou de forma mais concreta, a relação entre vivência e expressão debilitante física ou psicológica da doença. O apertar da borracha vermelha acoplada ao seu nariz representa muito mais que felicidade ingênua e momentânea, significa uma análise social, política e econômica dos motivos pelos quais trouxeram pessoas para seu cuidado, ademais, simboliza a muitos a renovação de sensações que pouco passaram em vida e que descobrem em fins dela que o leito reservado à morte da licença ao berço de alegria e felicidade.

* Para maiores informações sobre o Instituto Gesundheit!: http://www.patchadams.org/


** Em homenagem ao Dr. Patch Adams, o "Filme da Semana" apresenta o filme que busca contar parte de sua história .

domingo, 27 de janeiro de 2008

Existir ou Não Existir? Eis a Questão


A imagem acima é famosa, certamente ja foi vista por muitas pessoas, principalmente na internet. Trata-se de uma gravura de Maurits Cornelis Escher, um artista holandês que se destacou pelas ilusões ópticas, contradições e infudamentos lógicos de suas obras.
Inicialmente, olhando-se a figura, percebemos o quão bem feita está, os traços firmes, as sombras bem acentuadas visando nos dar impressão de profundidade, as proporções respeitadas, etc. Enfim, é uma imagem que de relance nos é agradável aos olhos, contudo, após 5 ou 10 segundos fitando-a, nos traz um grande desconforto. Não que percebemos que sua técnica de desenho não era tão boa como anteriormente julgáramos, nem tãopouco que suas proporções estão incondizentes com a realidade como estamos acostumados a ver, mas o seu sentido, a viabilidade de tal edificação em nosso mundo parece não existir.
Para os mais íntimos com técnicas de pinturas e desenhos, Escher apenas está brincando com a lógica da perspectiva. Apesar de respeitada graficamente (a sensação de profundidade), alguns de seus traços nos induzem à incoerência. No caso específico, as colunas que sustentam os corredores de água. Tamanho é o absurdo com o qual nos deparamos que, se propusermo-nos a pensar fisicamente, estamos numa situação nunca antes vista na história da humanidade e que certamente revolucionaria o progresso do homem: energia livre e infinita. A energia potencial da água empregada na rotação do moinho é constantemente reutilizada. De alguma forma absurda, essa energia é restaurada pelo próprio movimento do líquido. A água basicamente sobe sem acréscimo de trabalho exercido sobre ela. Imaginem na revolução científica que esta façanha traria! A energia sendo constantemente reutilizada sem emprego de nenhuma outra forma de energia para este fim. Para que petróleo? Para que álcool? Para que barragens e hidrelétricas? Para que usinas termonucleares? Para que guerras, se toda energia que necessitamos está em mãos com apenas o rodar de um moinho d´água?
Apesar de excitante, esta situação é irreal, impossível, e já foi contestada pela ciência em questões referentes à transformação de energia. Nessa situação não há transformação, sim contínua criação de energia para manutenção da rotação do moinho.
Afastando-se um pouco da física, a imagem de Escher nos faz mais questionar do que elucidar. Até que ponto o que vemos, ou aquilo que nossos sentidos apontam, correspondem à realidade? Ou ainda, de forma contrária, até que ponto o que não vemos, e não sentimos, existe?
Primeiramente, há necessidade de se partir de uma premissa importante para essa discussão. Existir é um sentido ou independe de nossa subjetividade?
O filósofo e matemático francês Reneé Descartes, em seu famigerado "Discurso sobre o Método", defende a idéia de que os sentidos não podem ser ferramenta primária na análise de alguma existência ou de algo no universo. Ver, cheirar, tatear ou escutar complementam a existência, mas não a definem. O autor julga que para este fim ser atingindo, um método, no qual propõe, sem impô-lo entretanto, facilitaria o objetivo de se definir e analisar algo. Engana-se quem, a priori, julga que esse condizeria com a reputação científica da não crença e não existência do Algo mais sentido e, no entanto, "menos" existente no Universo: Deus. Descartes, formaliza, racional e logicamente, dentro do método por ele criado, a existência de uma entidade superior.
Por outro lado, até que ponto a razão pode nos guiar perante o universo? Algo é fato, a Ciência, maior defendedora dessa ferramenta, não trabalha com o que é, mas com o que aparenta ser. Não trabalha com essências, mas com resultados, e como consequência não trabalha com verdades nem com o existir, em alguns casos. Por outro lado, a filosofia é tida como algo mais abrangente, entretanto, menos precisa. Procura através da ferramenta racional as essências e as verdades e, no entanto, frequentemente se depara com contradições lógicas naquilo que se mostrou extremamente lúcido dentro de sua própria forma de análise. A lógica empregada prontifica-se a comer seu próprio rabo, quando dela e nela é realizada sua auto-análise.
As divergentes situações da busca do existir mostrados aqui não esclarecem muito às perguntas propostas no decorrer do texto, talvez por que não se possa firmemente declarar suas respostas. A existência e sua busca, são intrínsecas à natureza do homem. Um questionamento como apresentado aqui, contudo, não deve ser continuamente revivido, a não ser ocasiões que o remetem. Deve-se ter em mente, porém, que a realidade, no âmago de seu significado e na forma como a interpretamos, é tão precisa quanto a massa de um átomo medida numa balança de feira.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Falece Bobby Fischer


Nessa última quinta-feira, 17 de janeiro de 2008, veio a falecer, aos 64 anos de idade, por motivos ainda não divulgados, um dos maiores enxadristas de todos os tempos: Robert James Fischer, carinhosamente apelidado de "Bobby" Fischer. Essa notícia foi, certamente, pouco divulgada no Brasil, sobretudo, pela falta de tradição nossa nesse jogo milenar, reconhecido pela lógica, pressão psicológica, inteligência e destreza mental, o xadrez. Senti-me, portanto, na obrigação de talvez não lhe prestar uma homenagem, mas de ao menos divulgar quem foi, o que fez, e o que representou.
Fischer foi um enxadrista que desde a mais tenra idade, mostrou grande talento com a dicromia de peças e tabuleiro. Entre os 10 e 12 anos de idade, participou de campeonatos no clube de xadrez de Manhatan na cidade de Nova Iorque, onde fora criado. Mostrou progressiva melhora, vencendo, inclusive, alguns veteranos e grandes-mestres (título máximo do xadrez). Aos 13 anos venceu o campeonato nacional e tornou-se o mais novo grande-mestre da história até então. Sua evolução perdurou e Bobby, aos 16 anos de idade, já se destacava entre as melhores mentes enxadristas do mundo.
Mais importante que suas jogadas maestrais, movimentos audazes e lúcidos com peças de madeira, plástico, vidro ou pedra, foi seu papel histórico. Em meados da primeira metade da década de 70 Bobby Fischer disputou um série de partidas almejando o título mundial contra o também grande enxadrista soviético Boris Spassky. Lembrando as aulas de história aos mais recentes, e aos mais velhos, a juventude, o período compreendido entre o término da Segunda Guerra Mundial e finais da década de 80 foi marcado pela guerra ideológica entre capitalismo e socialismo, iconizados por duas grandes nações com sistemas econômicos bastante distintos: Estados Unidos e União Soviética.
Essa denominada "Guerra Fria" atuou não apenas nos meios sociais, políticos e econômicos, mas engendrou-se e expandiu-se em meios mais superficiais, porém não menos persuasivos, como por exemplo, o esporte.
Olimpíadas e eventos esportivos internacionais viraram focos das atenções diante da bipolarização mundial. Os esforços e superações individuais dos atletas eram denegridos em prol das respectivas origens econômicas e políticas das fronteiras de que provinham. Considerava-se óbvio a adesão do atleta ao sistema político-economico de sua nação, e portanto, digno de propaganda. Algo sobre sua natureza e vontade, o Estado acima do Homem.
A importância de Fischer evidencia-se nesse contexto. Os olhos mundiais estavam focados dentro daquelas 64 casas. O branco e preto do quadriculado nunca se tornaram tão vermelho-sangue dos campos de batalha. Peões, bispos, cavalos, torres e rainha nunca antes foram forças militares tão devastadoras. Reis nunca condensaram tanto sentido dentro de pedaços de madeira de alguns centímetros de altura. Xeques e xeque-mates nunca representaram tanto esse conflito ideológico, e o que é pior, nunca representaram tanto o entrave intelectual entre os dois países. De toda a lógica e razão característica dessas 32 peças, ao irracionalismo e fanatismo dos insanos.








Fischer versus Spassky, em um dos jogos pela disputa do título mundial.

Para felicidades de uns e desilusões de outros, Bobby Fischer prevaleceu sobre Boris Spassky, tornando-se o campeão mundial de xadrez em 1972. Coincidência ou não, o ideal capitalista também instaurou-se como o mais "forte" cerca de 15 anos mais tarde com o esfarelamento da União Soviética e fim do sonho comunista.
Engraçado é notar como os significados constróem nossas vidas constantemente, de jogos despretensiosos de xadrez à formação das opiniões e nações. Como nossa capacidade de transcender o real, o concreto, acaba por nos ajudar a enfrentar a objetividade e cobrança do mundo ao mesmo tempo que desvirtua os propósitos iniciais e desfoca as images continuamente deparadas por nossas mentes cotidianamente.

Robert James Fischer - Chicago 1943/Islândia 2008

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Ode a Blogueria

Antes de mais nada, antes de me aventurar em mais um post nesse ingênuo blog, tomei a liberdade de criar um termo, do qual desconheço a respeito dos blogs. "Blogueragem", "Bloguemento" ou "Blogueria"? Ou quem sabe outro... Alguém sabe? Enfim, o substantivo do ato de blogar. É substantivo mesmo?... Ah, não sei... Escolhi o último por mais me simpatizar e por me fazer recordar de uma banda mexicana de metal na qual tenho grande apreço.
Finalmente ao post. Como devem ter notado o tema em questão é o próprio, o motivo de estar aqui, o tempero das relações virtuais: o blog.
Confesso, que inicialmente, em meu mundo exclusivamente utilitário serviçal da internet, não dei a consideração que posteriormente viria a ter pelo mundo da blogueria. Cheguei sim a entrar em alguns, mas os considerava muito fracos, enfadonhos, excessivamente emotivos, razos intelectualmente, sem contar aqueles que são uma grande declaração de "amor" quantizada, fútil e engarrafada, publicada em posts com disposição mais ou menos regular. Características que me repeliram prontamente.
No entanto, tempos passaram (ainda bem que passam...), e uma súbita vontade de redigir um texto me assolou. Primeiramente, escrevia-os soltos, como documentos do Word, apenas para deleito próprio. Posteriormente, a necessidade de discutí-los assolou-me mais do que o ato do qual proveram. Eis o papel do blog, resolvi compôr um, esse mesmo, o próprio, com a ajuda inicial de um amigo (Sr. Tablóide - referência recomendada na coluna esquerda desse blog).
Após pouco tempo e depois da busca pela separação do joio do trigo na qualidade dos blogs, conforme as características descritas por mim dois parágrafos atrás, e após ler um post específico de um blogueiro como eu (Rafael Portillo - outra boa referência), a respeito da diversidade e riqueza dos blogs, resolvi redigir este texto metalinguístico sobre o ato, propósito e consequencia do ato de blogar, a blogueria.
Descobri blogs excelentes e com o nível das discussões que tanto busquei. Senti que existe um processo de construção atuando pelas entranhas da rede, existe um processo de formação de sujeitos e superação dos objetos, uma tentativa de discussão, uma procura por algo a mais, uma contínua reformulação de quem somos. Espero que não esteja enganado, mas vejo que esses são os preceitos de uma "Democracia Fundamental", como citado por Paulo Freire em seu recomendável livro "Educação como Prática da Liberdade". Claramente é algo tímido e despretencioso, mas com grande potencial de crescimento e transformação. Afinal de contas, o acesso aos computadores pessoais, e mais importante, o acesso à internet, há tempos deixaram de ser serviços restritos às elites. A dispersão de lan houses a custos acessíveis, e formas diversas de acessos à rede, bem como as práticas do dia-a-dia mais dependentes dela, "democratizou" os blogs, e de certa forma gerou e está gerando uma mudança social, virtualmente... Isso não é loco?!?!?!?
Não reluto em dizer que somos todos cientistas, talvez não no rigor e objetividade que a Ciência presa, mas temos, sem sombra de dúvida, a criticidade, dúvida e incorformismo sobre a qual ela mesma foi edificada, e sobre a qual fincou-se alta no questionamento do Universo.

"O mundo não é, está sendo" - Paulo Freire